quarta-feira, 21 de abril de 2010

ANTES QUE SEJA TARDE

Original inglês de Ida Goldsmith Moore

Tradução de Alípio Bandeira

À tua velha mãe que longe mora

Na saudosa vivenda sossegada,

_ Vamos, senta-te á mesa e escreve agora

A carta já cem vezes protelada.

Não delongues até que a úmida cova

Seu pobre corpo, para sempre guarde;

Dá-lhe do teu carinho alguma prova,

Antes que seja tarde...

Se te vem á lembrança um doce agrado,

Um gesto, uma palavra que enterneça,

Não demores: _ aplica o teu achado;

Talvez por demorar, tudo te esqueça,

Ah, quem sabe que amargos pensamentos

Colheras da expansão que se retarde...

Abre a porta dos gratos sentimentos,

Antes que seja tarde...

As palavras de afeto improferidas,

A carta, sempre em mão, nunca enviada,

A riqueza de amor não dissipada,

São de outros corações ardente anelo.

O mais caro talvez, que o zelo aguarde...

Por esses mostra, pois todo o desvelo

Antes que seja tarde...


A Leoa


Não há quem a emoção não dobre e vença,
Lendo o episódio da leoa brava,
Que, sedenta e famélica, bramava,
Vagando pelas ruas de Florença.

Foge a população espavorida,
E na cidade deplorável e erma
Topa a leoa só, quase semv ida
Uma infeliz mulher débil e enferma.

Em frente à fera, um estupor de assombo,
Não já por si tremia, ela, a mesquinha,
Porém, porque era mãe e o peso tinha,
Sempre caro pras mães, de um filho ao ombro.

Cegava-a o pranto, enrouquecia-a o choro,
Desvairava-a o pavor!... e entanto, o lindo,
O tenro infante, pequenino e louro,
Plácido estava nos seus braços rindo.

E olhar desfeito em pérolas celestes
Crava a mãe no animal, que pára e hesita,
Àquele olhar de súplica infinita,
Que é só próprio das mães em transes destes.

Mas a leoa, como se entendesse
O amor de mãe, incólume deixou-a...
É que esse amor até nas feras vê-se!
E é que era mãe talvez essa leoa!


de Raimundo Correia